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A morte da Morte

novembro 3, 2010 2 comentários

Ontem, dia de finados, a @patigeiger postou em seu blog um texto intitulado “A morte vai morrer”, e que trazia em si as palavras de Paulo em I Co. 15:54. Esse texto me fez lembrar de um artigo publicado pela revista Ultimato, na edição de março/abril de 2000, intitulado “A morte da morte”. Transcrevo abaixo o artigo da Ultimato. Vale a pena ler e refletir.

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Fonte: Ultimato março/abril – 2000

Por Jair Cordeiro*

Agradeço sinceramente a todos que vieram ao meu sepultamento hoje pela manhã: parentes, companheiros de fé e amigos. Vocês foram muitos atenciosos comigo e com minha família. Deus os abençoe.

Aproveito a comoção do momento para dar testemunho da minha esperança em Cristo, meu Salvador e Senhor meu. Mantive, ampliei e preguei até ontem, dia da minha partida, uma fé simples e bem firmada no sacrifício vicário e na pessoa de Jesus Cristo. Dou graças a Deus porque Ele arrancou o véu e me deixou ver o Senhor por meio das Escrituras.

Agora quero fazer um convite muito solene. Convido-os para o enterro da morte. Não posso fornecer-lhes a data nem o horário, mas, suponho, não vai demorar muito. Ela está morrendo aos poucos. Não há como escapar.

Por favor, não coloquem luto nem roupas sérias. Venham o mais informal possível, com peças bem coloridas. Todos quantos conhecem música, tragam seus instrumentos de corda e de sopro. De percussão também. As cornetas serão muito bem-vindas. Façam alarde e muito barulho. Pulem, dancem, levantem as mãos para o alto, mexam-se à vontade. Em qualquer outro enterro, isso seria impossível. Mas, no enterro da morte, tudo é possível. É dia de festa e não de dor.

Ao convidá-los para o único enterro festivo da história, parto do pressuposto de que vocês também acreditam na morte da morte. Não tenham a menor dúvida: a morte vai morrer. Além de ser um fato absolutamente lógico sob a perspectiva cristã, está escrito: “O último inimigo a ser destruído é a morte” (1 Co 15.26). Desde que foi assunto aos céus e assentou-se à direita de Deus, Jesus Cristo está colocando debaixo de seus pés todos os poderes do mal. Em sua agenda, a morte da morte está em último lugar.

Não os convido para uma revanche contra a morte. Convido-os para a mais solene de todas as comemorações jamais realizadas. Hoje proclamamos pela fé: “Onde está, ó morte, a tua vitória? onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1 Co 15.55.) Amanhã, no cortejo festivo da morte, não será por fé, mas por olhos. A festa é indispensável. Lembrem-se de quantas vezes vocês vieram aos cemitérios deste mundo para sepultar, debaixo de muita dor e muitas lágrimas, o cônjuge de muitos anos ou o filhinho de poucos anos. Naquele tempo era a vez da morte. Por ocasião da morte da morte, será a nossa vez. Se vocês ainda têm alguma dúvida, leiam o que está registrado na penúltima página da Bíblia: “Não haverá mais morte, nem lamento, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou” (Ap 21.4).

Ah, já ia me esquecendo de fazer uma sugestão: cantem a quatro vozes no enterro da morte o grande coro Aleluia, do oratório O Messias, de George Frederico Handel, entoado pela primeira vez em 1742.

* Jair Cordeiro é nome fictício. Por enquanto, o autor prefere permanecer no anonimato. A seu pedido, o texto será distribuído no dia de seu enterro.

O Jesus do Evangelho não é mártir!

abril 2, 2010 1 comentário

Fonte: Revista Ultimato

Jesus não pode ser colocado ao lado de João Batista, de Estevão nem de Tiago, que foram mortos por suas crenças e pregações. Não pode ser colocado ao lado de Policarpo, daqueles sete homens e cinco mulheres do norte da África, daqueles 222 missionários cristãos da China e da Coréia nem daqueles 26 religiosos da Espanha, que perderam a vida por sua fidelidade ao evangelho. Não pode ser colocado ao lado de todos que têm morrido nestes últimos anos por causa de sua posição contrária à discriminação e à opressão, como Mahatma Gandhi, assassinado em 1948, aos 79 anos, e Martin Luther King, morto em 1968, aos 39 anos.

Precisamos corrigir imediatamente qualquer discurso e qualquer música que ainda chamem Jesus de mártir, como aquela que diz que “Ele veio ao mundo pra ser mártir da paz”.

Mártir é aquele cuja morte é imposta de modo irreversível por religiosos, autoridades e indivíduos de crenças opostas e intolerantes. O mártir só escapa da morte se voltar atrás e negar sua fé, nem que seja no último instante da vida, à semelhança de André la Fon, aquele alfaiate calvinista que foi poupado por Nicolau Durand de Villegaignon de ser estrangulado e jogado na Baía de Guanabara, em fevereiro de 1558.

É irreverência e heresia chamar Jesus de mártir. Esse infeliz procedimento diminui a sua glória e confunde tudo. O próprio Jesus Cristo deixou claro várias vezes que Ele não seria morto por vontade seja lá de quem fosse. O texto mais contundente é aquele em que Ele afirma categoricamente: “Ninguém tira a minha vida de mim, mas eu a dou por minha própria vontade. Tenho o direito de dar e de tornar a recebê-la. Foi isto o que meu Pai me mandou fazer” (Jo 10.17-18, BLH). A morte de Jesus é uma doação, como Ele mesmo declarou: “Eu sou o bom pastor: o bom pastor dá sua vida por suas ovelhas” (Jo 10.11, BJ).

Jesus sempre correu risco de vida, mas nunca morreu, senão quando Ele mesmo “derramou a sua alma na morte” (Is 53.12). Livrou-se de todas as tentativas de morte que lhe armavam, a começar com a de Herodes, o Grande, que mandou matar todas as crianças do sexo masculino de idade inferior a 2 anos residentes em Belém e seus arredores, na certeza de que uma delas seria o recém-nascido menino Jesus (Mt 2.13-18). A essa altura, a criança já estava no Egito. Em outra ocasião, só porque Jesus informou que era anterior a Abraão, os judeus “apanharam pedras para atirar nele, mas Jesus ocultou-se e saiu do templo” (Jo 8.59).

A história é coerente o tempo todo. Em um momento de angústia, semelhante ao outro que teria pouco depois no Getsêmani, Jesus desabafa: “Agora meu coração está perturbado, e o que direi? Pai, salva-me desta hora? Não; eu vim exatamente para isto, para esta hora” (Jo 12.27). E, quando chega a hora de dar sua vida pelas ovelhas, Jesus não foge, não se esconde, não se oculta, não recorre a milagre algum, não pede ao Pai o concurso de legiões de anjos nem permite que Pedro faça uso da espada (Mt 26.47-54). Agora, apenas agora, Ele deixa as coisas acontecerem naturalmente. E ainda corrige Pilatos, quando este presunçosa e ignorantemente lhe dirige a seguinte ameaça: “Não sabes que eu tenho poder para te libertar e poder para te crucificar?” (Jo 19.10). A resposta de Jesus é imediata e explícita: “Não terias nenhuma autoridade sobre mim, se esta não te fosse dada de cima” (Jo 19.11).

Jesus não é mártir porque a morte dele foi voluntária. Ele tinha completa liberdade diante da morte.

A morte espontânea de Jesus tornou-se necessária por causa do pecado. Ele tomou livremente sobre si o pecado de muitos (Is 53.5-12) e tornou-se, então, culpado de pecado. É como muito bem explica Paulo: “Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado [Jesus], para que nele nos tornássemos justiça de Deus” (2 Co 5.21, NVI). Em outras palavras, “Deus tornou Cristo solidário com o gênero humano pecador, a fim de tornar os homens solidários com a sua obediência e a sua justiça” (A Bíblia de Jerusalém, p. 1.513).

Aí está a base do perdão, da justificação, da nossa paz com Deus. A salvação é gratuita para aquele que crê e se beneficia do sacrifício de Jesus, mas não é gratuita para Ele. Daí a lembrança de Pedro: “Vocês sabem que não foi por meio de coisas perecíveis como prata e ouro que vocês foram redimidos da sua maneira vazia de viver que lhes foi transmitida por seus antepassados, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha e defeito” (1 Pe 1.18-19). Pode parecer muito estranho, mas, na verdade, Jesus foi castigado em nosso lugar. Tanto o profeta Isaías como o apóstolo Paulo, cada um a seu tempo, asseveram a mesma coisa. O primeiro, sete séculos antes de Cristo, explica que “O castigo que havia de trazer-nos a paz caiu sobre Ele, sim, por suas feridas fomos curados” (Is 53.5, BJ). O segundo, alguns anos depois de Cristo, argumenta: “Aquele que não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará, juntamente com Ele, gratuitamente todas as coisas?” (Rm 8.32, NVI). Agora é mais fácil entender o brado de Jesus na cruz, citado por Mateus (27.46) e Marcos (15.34): “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”

Quem considera Jesus um mártir é obrigado a reduzi-lo a um personagem simplesmente histórico, sem nenhum traço de divindade. Nesse caso, Jesus nasceu de Maria e José ou outro homem qualquer. Não é o Jesus do Evangelho e de todas as Escrituras Sagradas. Não é o Verbo feito carne, cheio de graça e de verdade. Não é o Agnus Dei, de que fala João Batista (Jo 1.29). Não é o Ressuscitado. Nem tampouco aquele que foi assunto ao céu, onde se encontra à direita de Deus. Também não é o Jesus de que todos precisávamos, já que “é impossível que sangue de touros e bodes tire pecados” (Hb 10.4).

É bom que fique terminantemente assentado: o Jesus do Evangelho, o Jesus propriamente dito, o Jesus original não é e nunca foi mártir. O clero católico, ortodoxo e protestante precisa instruir o povo a este respeito, repetidas vezes, com convicção e autoridade, até acabar por completo com essa idéia popular de um Jesus mártir!

A Cruz: loucura, glória e salvação

Hoje, sexta-feira chamada santa, um número expressivo de cristãos em todo o mundo estão relembrando a crucificação e morte do Senhor, numa série de celebrações que têm seu ponto alto no Domingo de Páscoa, quando estarão comemorando a Ressurreição. Há também uma parcela significativa de cristãos que não observam esta data, uma vez que não há uma orientação bíblica sobre o tema e por considerarem todos os dias iguais (Rm. 14:5). Contudo, este dia não deixa de nos oferecer mais uma oportunidade de pensarmos sobre o escândalo da cruz e o poder de sua mensagem. Por isso, quero dedicar os posts deste fim de semana ao tema da morte e ressurreição do Senhor.

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O Escândalo da Cruz

Autor: Robinson Cavalcanti

Fonte: Diocese Anglicana do Recife

O apóstolo Paulo resumindo o cerne da sua mensagem como missionário, afirmou:“Nada fiz conhecer entre vós do que a Cristo, e esse crucificado”. A cruz, desde os primórdios da história da Igreja – e hoje – tem sido considerada “um escândalo”. Humanamente, como pode um instrumento de execução vil do Império Romano ser transformada no símbolo maior da que é hoje a maior religião do mundo? Sabemos que três são os símbolos fundamentais para o Cristianismo: a manjedoura, a cruz e otúmulo vazio, e nem sempre todos os segmentos cristãos têm dado a devida importância a todos, ora enfatizando uns, ora não enfatizando outros. Mas eles são inseparáveis na economia da salvação.

As religiões do mundo – todas elas – negam e rejeitam a cruz e o seu significado, inseparável da Providência e da Graça de Deus, incompreensível para os que buscam a salvação na Lei, nas Obras, nas Mortificações ou na Reencarnação. Se a Graça é algo único, a Cruz também é algo único, como única é a fé gerada pelo Espírito Santo, que nos faz receber a Graça e aceitar as implicações da cruz.

Em tratando dos sacrifícios do Antigo Testamento, com os cordeiros imolados prefigurando o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, ensina a Palavra que: “sem derramamento de sangue não há salvação”. Pode ser difícil entender pelos olhos da carne, porque é um mistério insondável.

Mas, assim aprouve ao Pai agir em um Filho que se doou.

Muitas seitas paracristãs, como as Testemunhas de Jeová e os Mórmons, procuram“reinterpretar” o sentido da cruz; o mesmo se diga do Liberalismo Moderno e do Liberalismo Pós-Moderno, que acha “chocante”“irracional”“repulsivo” essa interpretação “forense” da cruz: alguém que toma o lugar de outro e paga a sua pena.

A obra de salvação se fez perfeitamente na cruz, e o sangue do seu Filho Jesus Cristo nos purifica de todo o nosso pecado, por ele somos lavados e justificados, e a cruz, que tem um lugar de honra em nossas igrejas, está vazia, porque Ele ali não ficou.

Por isso não podemos centrar a nossa mensagem em algo outro senão a cruz.

Por isso, contritos e com fé, cantamos “Rude Cruz”.

Cristo humilhou-se a Si mesmo e obedeceu à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e lhe deu o nome que está acima de todos os nomes.

“Concede-nos misericordioso que, seguindo o caminho da cruz, seja este para nós vereda de vida e paz” (Livro de Oração Comum Brasileiro – LOCb).

  • Robinson Cavalcanti é bispo anglicano do Recife.

Nossa esperança futura

fevereiro 9, 2010 2 comentários

O último fim de semana foi marcado por dias intensos e marcantes, onde os sentimentos variaram de um extremo ao outro. Numa noite, a alegria do nascimento do Abner, filho dos meus amigos Sandro Lourenço (@sandroamd7) e Graziela. Na noite seguinte, a tristeza do falecimento da Nani, uma irmã querida, vinculada à rede de igrejas da qual faço parte. Uma madrugada acompanhando a família e alguns irmãos na organização do funeral. A tarde do meu aniversário passada no velório. Ainda assim, durante a noite alguns amigos prepararam uma surpresa, e me presentearam com o livro Surpreendido pela Esperança, de N. T. Wrigth. Contudo, não perceberam a relação entre o livro e aquele momento, já que os temas abordados são a morte, a ressurreição, a esperança e como tudo isso pode afetar nossa vida no presente.

Essas situações favoreceram muitas reflexões, pois “melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração” (Ec. 7:2).

Hoje quero apenas postar mais um texto publicado pela revista Ultimato. Seu tema é a nossa esperança futura, a redenção de nossos corpos. Paulo, quando ensina sobre a ressurreição dos mortos, explica sua motivação para isso: “Não queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes com respeito aos que dormem, para não vos entristecerdes como os demais, que não têm esperança” (I Ts 4:13). Somos o povo da esperança, e devemos sempre trazer à memória aquilo que pode renová-la.

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A Ressurreição do Corpo…

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É a certeza mais absurda e mais segura de todas as certezas produzidas pela fé cristã.

É a mais radiante luz no final do mais escuro e mais longo de todos os túneis da vida.

Não é gradativa, não é progressiva, não é evolutiva, não é dispersa. Ela acontecerá de repente, num abrir e fechar de olhos, de forma coletiva, perfeita e definitiva, tornando desnecessário qualquer outro avanço, qualquer outra experiência.

Marca o fim da história e celebra o grand finale, a apoteose advinda pela vitória de Jesus sobre a morte, a matriz da dor mais intensa e da humilhação mais profunda.

Significa a morte da morte, o enterro da morte, o desaparecimento da morte.

É a reconstrução do corpo criado originalmente à imagem e semelhança de Deus, mas que a queda tornou ao mesmo tempo pecador, corruptível e mortal.

É o retorno à vida de todos aqueles que foram sepultados e cremados, de todos aqueles que foram transformados em pó e cinzas, de todos aqueles que desapareceram no seio da terra, nas profundezas do mar e no espaço sideral sem deixar vestígio.

É a vitória final produzida pela ressurreição de Jesus, que derrubou por terra a prolongada e ostensiva vitória da morte.

É a mais surpreendente, a mais oportuna e a mais desafiadora de todas as esperanças.

É melhor do que a cura de qualquer doença terminal e do que o livramento temporário da morte. Tanto a cura como o livramento são muito bem-vindos, mas são meros adiamentos da morte, enquanto a ressurreição é a vitória consolidada da vida sobre a morte.