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Disciplina ou vingança?

Autor: João Heliofar de Jesus Villar
Fonte: Ultimato – Seção Opinião

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disciplina 2Recentemente na cidade de Viamão, região metropolitana de Porto Alegre, o diretor e os professores de uma escola de ensino médio resolveram promover um mutirão para pintar o prédio. Todos participaram da iniciativa e graças a esse esforço, a obra ficou pronta num final de semana.

Porém, no dia seguinte a escola amanheceu pichada com o apelido de um dos alunos. Foi simples identificá-lo, já que ele era conhecido pelo apelido estampado na parede da escola, e o próprio, quando questionado, assumiu a responsabilidade pelo estrago.

Não é difícil imaginar o grau de revolta dos professores. A professora de inglês, Maria Denise Bandeira, resolveu aplicar uma disciplina ao pichador. Ordenou ao garoto que não só apagasse a mancha deixada na parede, mas que também fizesse retoques na pintura em outras oito salas. Enquanto pintava e promovia os retoques, o menino era filmado e ia sendo execrado pela professora, que o chamava de “bobo da corte” e ameaçava expor as cenas no Youtube. O vídeo na verdade acabou sendo visto em todo o Brasil e a cena gerou um debate sobre os limites da disciplina nas escolas.

Nas manifestações dos leitores dos jornais houve maciço apoio à atitude da professora. Para se ter uma ideia do percentual de apoio que ela conquistou, em 124 manifestações de leitores do jornal gaúcho Zero Hora, apenas uma fez reservas à disciplina aplicada ao pichador.

Os pais do aluno, porém, se revoltaram. O filho se sentiu humilhado e não queria voltar à escola de jeito nenhum.

Quem tem razão nessa história? Parece claro que há um clamor público por limites. Diante do afrouxamento dos valores na pós-modernidade, uma era norteada pela incerteza e que glorifica a dúvida, fica difícil sustentar valores, estabelecer limites, disciplinar. Mas a “louvação” da professora de Viamão revela que o povo clama por limites.

Então qual o limite da disciplina? A questão não é acadêmica e nem se restringe à educação escolar, já que afeta não só a família, mas se estende inclusive à igreja. E a resposta está no propósito da disciplina. Seu objetivo não é apenas punir, e sim restaurar. Se Deus disciplina a todos a quem ama, o princípio que deve orientar a autoridade que exerce o poder disciplinar é a restauração do aluno ou discípulo. Na revolta causada pela falta cometida, porém, regularmente a restauração é totalmente esquecida e a punição assume o papel de protagonista principal do drama.

No caso de Viamão, a professora Maria Denise agiu bem em decidir disciplinar a falta do aluno. Contudo não se pode dizer o mesmo em relação à dose empregada, na medida em que a punição assumiu ares de vingança. E a vingança é a perversão da disciplina. Ajusta-se perfeitamente a este caso o dito popular de que a diferença entre o remédio e o veneno está na dose.

• João Heliofar de Jesus Villar, 45 anos, é procurador regional da República da 4ª Região (no Rio Grande do Sul) e cristão evangélico.

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  1. outubro 14, 2009 às 11:30 am

    Muito bom o texto, e muito coerente a questão abordada. Hoje vivemos em uma sociedade, já pós-capitalista, uma sociedade da soberba, sociedade do eu tenho muito mais do que preciso e quero ainda muito mais, não me importando com o que preciso fazer ao meu próximo para alcançar tal objetivo a sociedade do Eu sou o Poderoso…..tudo bem, o que isso tem a ver com o que está no texto….simples mesmo com um gesto que no início foi bom, disciplina uma atitude que seria reprovada por qualquer um de boa índole, por conta da inclinação ao novo estereótipo de sociedade, o gesto virou a chance de querer humilhar uma pessoa para satisfação do ego, nesse caso da professora que mesmo que inconscientemente, fez o que fez para mostrar seu Poder de dominação perante os alunos.

    E isso é a Raiz do pecado que temos em nós é isso que nos afasta de D-us – o querer ser o Cara, o Poderoso, o Dono do próprio nariz…. tudo o que vemos hoje é consequência dessa Raiz que nos escraviza desde o Édem.

    Fiquem na Paz e continuem a orar – pois mais do que nunca é chegada a hora de ser luz para esse mundo.

    http://www.keepwit.blogspot.com
    http://www.bandaapogeu.com

  2. Sandro Lourenço.
    outubro 15, 2009 às 4:22 pm

    Texto excelente. Fico feliz em ver cristãos com a compreenção do nosso irmão João Heliofar de Jesus Villar,ainda mais em uma posição social estratégica como a dele. Que Deus lhe dê graça em nome de Jesus!

  3. outubro 22, 2009 às 11:34 am

    muito didático esse texto. gostei. me esclareceu muitas coisas.

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