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Archive for the ‘História da Igreja’ Category

A propósito dos 200 anos de Robert Kalley

Setembro 14, 2009 andersonpaz 2 comentários

1No último dia 08, celebrou-se os 200 anos de nascimento do médico e missionário escocês Robert Reid Kalley, um dos pioneiros da evangelização protestante no Brasil e em Portugal. Do lado de cá do Atlântico, Kalley estabeleceu o primeiro trabalho de evangelização de caráter permanente e em língua portuguesa, uma vez que as tentativas anteriores ou não tiveram continuidade, ou foram destinadas a estrangeiros residentes no Brasil.

Tendo em vista esses 200 anos, quero chamar a atenção para uma personagem da história do Dr. Kalley que, apesar de anônima, mudou sua trajetória de vida.

Kalley nasceu em uma família cristã. Sua mãe faleceu quando ele ainda era criança, e por isso foi criado por seu padrasto, de quem testemunhou dizendo: “Durante minha infância… fiquei debaixo da tutela de um homem de valor… ele foi para mim um verdadeiro pai”. Contudo, com o passar dos anos, Kalley se desfez de sua formação cristã, tendo abraçado o ateísmo declarado. Em certa ocasião, Kalley escreveu:  

“Um coração mau e más companhias varreram tudo. As especulações da Filosofia e da Ciência (falsamente chamada) contrariavam todos os esforços do meu padrasto e cegaram o meu entendimento de tal maneira que não me era mais possível crer na existência de Deus. Parec3ia-me uma coisa nobre ser libertado da superstição e do fanatismo que a crença impunha à alma humana. Aqueles que faziam profissão de religião, eu considerava imbecis, ou, então, embusteiros, e desprezava-os a todos. Quando moço ainda, estudava várias ciências, admirava as maravilhas dos seres microscópicos, meditava na distância, a magnitude e na velocidade dos orbes. Vendo tudo isso, eu me achava impossibilitado de abraçar as idéia de um Deus, um Ser Supremo. Por muitos anos não cri em sua existência. Parecia-me impossível crer na real existência de um Ser, dotado de vida eterna, cuja ciência compreende tudo no universo e cujo poder impele os astros e, ao mesmo tempo, forma os delicadíssimos membros de um animalículo microscópicos”.

Contudo, o ano de 1835 foi marcado por uma profunda mudança na vida de Kalley: Ele abraçou a fé e tornou-se cristão. Mas como se deu essa mudança? Porto Filho relata a conversão da Kalley:

“Tinha sido chamado para atender a uma pobre e piedosa velhinha, presa de cruel e incurável enfermidade. Examinando-a, … ficou impressionado com o espírito de paciência e conforto íntimo com que a enferma suportava os sofrimentos …, e a tranquilidade com que via a morte aproximar-se inexoravelente. Terminada a visita e prestes a retirar-se, a doente pediu-lhe o favor de abrir o armário … e entregar-lhe o pão ali guardado e que lhe seria a refeição naquela hora. Ele o fez: encontrou um pedaço de pão seco, que depositou na mão da enferma. Esta, ao receber a migalha tão pobre, fechou os olhos, depois de um leve agradecimento ao Doutor, e deu graças a Deus pela comida. O médico sentiu um profundo abalo emocional: Como podia aquela anciã agradecer a Deus – ao seu Deus – por comida tão escassa e tão seca? Como podia ser tão tranqülila em tais desconfortos, tão serena e confiante em tantos sofrimentos? Procurou saber o motivo dessa atitude, … e ela, …declarou com toda a candura, que toda aquela paciência … vinha do fato de ser crente em Jesus e de sua leitura piedosa e diária das Santas Escrituras”.

Dez anos depois, Kalley declarou: “Quando senti, satisfeito, … que há um Deus, que este Livro (apontando para a Bíblia) é de Deus, então senti também que cada cristão é chamado a entrar naquele campo de atividade em que melhor possa usar para Deus todos os talentos que ele lhe deu. E, quanto a mim, tenho pensado de que maneira, como médico cristão, posso melhor servir ao Filho de Deus”

Essa velhinha anônima marcou profundamente a vida de Kalley. Com sua atitude demonstrou o supremo valor de Cristo. O Senhor Jesus é engrandecido quando lidamos com aquilo que temos de tal forma que fique claro e evidente ao mundo que nosso tesouro não estão nessas coisas, mas em Cristo. Portanto, na abundância de algo, devemos demonstrar que não estamos apegados a isso, mas a Cristo. E na escassez, devemos continuar demonstrando nosso apego à Cristo, expressando contentamento, pois nEle somos completos, plenos.

Afinal, de nada valerá estar preparado para responder a razão da esperança que há em nós, se o mundo não enxergar em nós uma esperança diferentes (I Pedro 3:15). O mundo não pedirá a razão da nossa esperança se não perceber que nossa esperança não está nas coisas visíveis. Se nossa esperança se resumir apenas às coisas terrenas, somos os mais miseráveis dentre os homens. Mas, podemos por nossos olhos em Deus e expressar ao mundo o supremo valor e  grandeza que Cristo se tornou para nós.

Anderson Paz

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Para prosseguir com essa reflexão, sugiro o vídeo abaixo, de John Piper.   

Jovens Moravianos

Agosto 28, 2009 andersonpaz 7 comentários

O que significa ser cristão?

Extraído do blog Voltemos ao Evangelho

Uma história de amor a Deus

“Iniciado em Hernhut, Alemanha no século 18, o movimento de oração continua (24 horas) chamado Moravianos durou por quase 100 anos, e eles não oravam por aquilo que não estavam dispostos a ser a resposta.

Dois jovens Moravianos, de 20 anos ouviram sobre uma ilha no Leste da Índia cujo dono era um Britânico agricultor e ateu, este tinha tomado das florestas da África mais de 2000 pessoas e feito delas seus escravos, essas pessoas iriam viver e morrer sem nunca ouvirem falar de Cristo.

Esses jovens fizeram contato com o dono da ilha e perguntaram se poderiam ir para lá como missionários, a resposta do dono foi imediata: ” Nenhum pregador e nenhum clérico chegaria a essa ilha para falar sobre essa coisa sem sentido”. Então eles voltaram a orar e fizeram uma nova proposta: “E se fossemos a sua ilha como seus escravos para sempre?”, o homem disse que aceitaria, mas não pagaria nem mesmo o transporte deles. Então os jovens usaram o valor de sua propria venda para custiar sua viagem.

No dia que estavam no porto se despedindo do grupo de oração e de suas familias o choro de todos era intenso, pois sabiam que nunca mais veriam aqueles irmãos tão queridos, quando o navio tomou certa distância eles dois se abraçaram e gritaram suas ultimas palavras que foram ouvidas: “QUE O CORDEIRO QUE FOI IMOLADO RECEBA A RECOMPENSA DO SEU SOFRIMENTO”.

Estou convencido que não devo orar se não estou disposto a ser resposta pelo o que estou orando. “… Deus é poderoso pra fazer muito mais…. de acordo com Seu poder que opera em nós” (Ef. 3:20)

Relatos Antigos – martírio de Policarpo

Agosto 22, 2009 andersonpaz 1 comentário

O que significa ser cristão?

Para te ajudar nessa reflexão, indico a pregação de John Piper sobre o martírio de Policarpo, bispo da cidade de Esmirna, do século II.

Relatos Antigos

Agosto 21, 2009 andersonpaz 3 comentários

O que significa ser cristão?

Para te ajudar a pensar sobre isso, transcrevo abaixo dois trechos de relatos sobre cristãos, escritos por críticos do cristianismo no século II.

Luciano de Samosata, satírico grego:

Antes de tudo, esses infelizes estão convencidos de que são imortais e de que viverão para sempre. Por isso, desprezam a morte e muitos a enfrentam voluntariamente. Seu primeiro legislador os convenceu de que eram todos irmãos. A partir do momento em que renunciaram os deuses da Grécia, passaram a adorar seu sofista crucificado e amoldaram suas vidas aos seus preceitos. Eles também desprezam todos os bens, mantendo-os para uso comum [...]. Se entre eles aparecer um hábil impostor, que saiba se beneficiar da situação, este se enriquecerá rapidamente pois poderá manipular como quiser essas pessoas que nada percebem”.

Plínio o Moço, governador da Bitínia, em carta ao imperador Trajano:

“Esta foi a regra que eu segui diante dos que me foram deferidos como cristãos: perguntei a eles mesmos se eram cristãos; aos que respondiam afirmativamente, repeti uma segunda e uma terceira vez a pergunta, ameaçando-os com o suplício. Os que persistiram mandei executá-los [...]. Outros, cidadãos romanos portadores da mesma loucura, pus no rol dos que devem ser enviados a Roma.

[...]

Recebi uma denúncia anônima, contendo grande número de nomes. Os que negavam ser cristãos ou tê-lo sido, se invocassem os deuses segundo a fórmula que havia estabelecido, se fizessem sacrifícios com incenso e vinho para a tua imagem [...] e, se além disso, amaldiçoavam a Cristo – coisas estas que são impossíveis de se obter dos verdadeiros cristãos – achei melhor libertá-los.

Outros [...] disseram ser cristãos e depois o negaram: haviam sido e depois deixaram de ser [...]. Todos estes adoraram a tua imagem e as estátuas dos deuses e amaldiçoaram a Cristo, porém, afirmaram que a culpa deles, ou o erro, não passava do costume de se reunirem num dia fixo, antes do nascer do sol, para cantar um hino a Cristo como a um deus; de obrigarem-se, por juramento, a não cometer crimes, roubos, latrocínios e adultérios, a não faltar com a palavra dada e não negar um depósito exigido na justiça. Findos estes ritos, tinham o costume de se separarem e de se reunirem novamente para uma refeição comum e inocente, sendo que tinham renunciado à esta prática após a publicação de um edito teu onde, segundo as tuas ordens, se proibiam as associações secretas”.

Extraído da página: http://www.veritatis.com.br/area/16

Concordando em Quase Tudo – Unidos em Quase Nada

Fonte: Revista Impacto – Ano 09, edição 51 -
REPRODUZIDO COM AUTORIZAÇÃO

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Compilado por Christopher Walker

“Se houve um encontro entre líderes da Reforma Protestante que encarnou, mais do que qualquer outro, a heresia que deixaria sua marca indelével nos séculos de divisão que viriam a seguir, esse encontro foi o famoso concílio Protestante que ocorreu em 1º de outubro de 1529, na cidade de Marburg, na Alemanha.

Organizada pelo príncipe Philip de Hesse, que queria formar uma frente política unida entre os protestantes contra as forças católicas no restante da Europa, a conferência contou com a presença da maioria dos reformadores alemães e suíços: Martinho Lutero e Philip Melanchthon, do lado luterano, e Ulrich Zwínglio, Martin Bucer e Johannes Oecolampadius, do lado reformado suíço.

Muitos Pontos em Comum

Os dois principais representantes do movimento de reforma, Lutero e Zwínglio, tinham muita coisa em comum. Ambos rejeitavam a autoridade do Papa e se apegavam à autoridade única das Escrituras; concordavam com a doutrina de justificação somente pela fé; rejeitavam a cerimônia e a doutrina da transubstanciação que era praticada na missa católica.

Lutero aceitara o convite com certa relutância, pois via na teologia de Zwínglio a antiga heresia dos nestorianos, que fazia uma separação entre a divindade e a humanidade de Cristo. Ele acreditava que havia uma relação direta entre o entendimento que se tinha da Ceia do Senhor e o entendimento de salvação e da atividade de Deus no mundo. Já, pelo outro lado, Zwínglio não via impedimentos em estabelecer comunhão com Lutero. Na conferência, ele orou: “Enche-nos, ó Senhor e Pai de todos nós, te suplicamos, com teu manso Espírito; e dissipa em ambos os lados as nuvens de desentendimento e paixão. Põe um fim à luta de fúria cega… Guarda-nos de abusarmos dos nossos poderes e capacita-nos a empregá-los com toda sinceridade para promover a santidade…”

Durante três dias a conferência prosseguiu, discutindo uma lista de quinze itens que Lutero havia formulado. Conseguiram progresso impressionante nos primeiros quatorze itens da lista. Houve acordo sobre a Trindade, sobre a pessoa, a morte e a ressurreição de Cristo, sobre a justificação pela fé, sobre o pecado original, sobre o Espírito Santo, sobre batismo, sobre confissão de pecados, sobre autoridades civis e sobre o erro do celibato entre o clero.

Mesmo sobre a questão da ceia do Senhor, havia vários pontos em comum. Dos seis subitens no décimo quinto ponto, houve acordo em cinco! Concordaram que a doutrina da transubstanciação estava errada, mas que os participantes deveriam receber tanto o pão como o vinho para participar pelo Espírito do corpo e do sangue de Cristo…

Mas quando chegaram à questão da presença real de Cristo no sacramento, as discussões atolaram.

Dividindo-se Sobre a Doutrina do Corpo de Cristo

Zwínglio tinha uma interpretação simbólica, enquanto Lutero citava enfaticamente as palavras do texto: Hoc est corpus meum (“Isto é o meu corpo”). Ele escreveu essas palavras com um pedaço de giz em cima da mesa, onde estavam conversando, e se recusava a aceitar qualquer desvio do significado literal delas.

O argumento de Zwínglio era de que o corpo de Cristo havia subido ao céu (At 1.9) e, portanto, não poderia estar nos elementos da Eucaristia. Cristo estava presente somente no sentido da sua natureza divina, espiritualmente nos corações dos participantes.

Já para Lutero, as palavras deveriam ser aceitas literalmente. O corpo e o sangue de Jesus eram realmente presentes “em, com e sob o pão e o vinho”, sem contudo transformar sua substância, como na transubstanciação. O texto que Zwínglio e Oecolampadius usavam para responder a Lutero era: “O Espírito é que vivifica; a carne para nada aproveita” (Jo 6.63). O argumento, porém, não causou efeito algum sobre Lutero.

Para a maioria das pessoas hoje, essa discussão pode parecer muito trivial; porém, para os reformadores era uma questão de enorme significado. Para eles, o que mais importava para manter a pureza e a fidelidade da reforma na igreja era a doutrina, principalmente naquilo que se relacionava com a justificação por fé em Cristo somente. A discussão da presença de Cristo na Eucaristia era ligada às duas naturezas de Jesus, a humana e a divina. Lutero enfatizava mais a união entre as duas naturezas, enquanto Zwínglio procurava mostrar a distinção entre elas.

Houve momentos no debate em que o tom era ríspido e cáustico. Em outros, cada lado procurava pedir perdão pelo uso indevido de palavras e pela falha em demonstrar o verdadeiro espírito cristão.

A questão, porém, não era tanto o direito que cada lado tinha de discordar, mas a atitude de separação que isso gerou no Corpo de Cristo. Lutero insistia que nenhuma aliança política era possível sem completa concordância doutrinária. Para ele, seus oponentes, como Erasmo, estavam permitindo que a razão humana alterasse as palavras claras das Escrituras. Estavam exigindo que os cristãos levassem algo de si próprios para alcançar a salvação. Por essa razão, Lutero dizia que não via nenhuma razão para ser mais caridoso com os “falsos irmãos” do que era com os seus inimigos de Roma.

“Um lado nesta controvérsia pertence ao diabo e é inimigo de Deus”, Lutero dizia – e ele não estava referindo-se a si próprio!

Fracasso e Divisão

No final da conferência, apesar de todos os pontos em que conseguiram concordar, Lutero se recusou a dar a destra de comunhão a Zwínglio e disse a Martin Bucer, de Estrasburgo: “É evidente que não temos o mesmo espírito!” A partir daí, ele também não demonstrou esforço algum para trazer união ou para tratar seus adversários com amor cristão.

Seja por causa de ambição pessoal, seja por causa do engano de se considerarem os guardiães da verdade e da doutrina pura, os líderes desta primeira cúpula protestante deixaram um modelo que tem-se repetido incontáveis vezes através da história, causando incalculável dano e divisão ao Corpo de Cristo”.

Na arena com Perpétua e Felicidade

Abril 1, 2008 andersonpaz 2 comentários

Artigo publicado na seção “Deixem que elas mesmas falem” da Revista Ultimato Março-Abril/2008

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Por por Délnia Bastos

Era o início do terceiro século. O Império Romano tinha se fortificado em toda a região do Mediterrâneo. A sociedade gozava de estabilidade e privilégios — entre eles o de assistir aos jogos realizados no anfiteatro. Este compunha-se de uma estrutura oval, com algumas jaulas laterais para as feras, a arena no centro e um pequeno templo debaixo da arena. Ali, os gladiadores pediam as bênçãos dos deuses romanos para suas lutas, ao mesmo tempo em que os condenados pelo rei aguardavam sua sentença. Ao redor da arena, havia uma espécie de arquibancada para o público assistir confortavelmente aos espetáculos.

Naquela época, o imperador Sétimo Severo baixou um edito segundo o qual todos deveriam oferecer sacrifícios aos deuses romanos e ao próprio imperador. O infrator era sentenciado, juntamente com outros criminosos.

Vívia Perpétua, uma jovem senhora da nobreza, e sua empregada Felicidade eram cristãs. Aos 20 anos, grávida, Perpétua foi condenada, juntamente com Felicidade e mais três cristãos, por desobedecerem ao edito imperial. Em vão o pai de Perpétua tentou várias vezes convencê-la de desistir da fé e sacrificar aos deuses. “O que será do seu filho?”, o pai a advertiu, sem sucesso.

Assim, em 7 de março de 203, foi dado o veredicto final: “Perpétua, Felicidade, Revocato, Secúndulo, Saturnino e Saturo são condenados às bestas no Anfiteatro de Cartago”. Segundo a história, Saturo não estava entre os condenados, mas voluntariamente compartilhou do martírio de seus irmãos em Cristo. Perpétua havia feito um pedido especial a Deus, e foi atendida: deu à luz no dia anterior à sua morte e uma amiga cristã adotou seu pequeno filho.

Os condenados deveriam usar uma roupa designada para o espetáculo. Cada roupa fazia menção a um deus romano, de modo que o sentenciado era oferecido como sacrifício àquele deus. Perpétua e Felicidade, e depois seus companheiros, se negaram a usar a “roupa festiva”, como que num último fôlego de testemunho — nem mesmo sua morte se tornaria oferenda para os deuses. Eles entraram na arena com pouquíssima roupa, mas com um brilho e uma alegria de espírito humanamente inexplicáveis. Todos eles tinham consciência de que sua morte seria um testemunho público importante para o avanço da fé cristã. Felicidade dizia que seu martírio significava para ela não a morte, mas um segundo batismo.

Os homens foram os primeiros a entrar na arena. Dois deles deveriam passar por uma ponte com uma série de obstáculos, entre os quais algumas feras, como leões e tigres, até que chegassem aos gladiadores. Secúndulo morreu na prisão, antes mesmo de chegar à arena. Saturnino foi decapitado e os outros dois morreram durante o espetáculo.

Por último, entraram a jovem senhora e sua companheira. Para elas, foi designada uma bezerra, que investiu primeiramente em Perpétua e em seguida avançou para Felicidade. Perpétua, após recobrar a consciência, ajudou Felicidade a se levantar. Conta-se que escorria leite daquela que amamentara apenas um dia seu filhinho recém-nascido. Elas foram retiradas da arena feridas, para serem mortas pelos gladiadores. A platéia estava exaltada. Queria mais, e exigiu que a morte fosse pública. Elas então morreram na arena, pelas espadas dos gladiadores.

Esta história comovente certamente nos lembra a passagem bíblica que diz: “Eles, pois, venceram [Satanás] por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Ap 12.11). Segundo Tertuliano, o sangue dos mártires é a semente da igreja. Com efeito, o sangue de Perpétua, Felicidade e de seus irmãos em Cristo foi a semente da igreja no Norte da África. Sua morte deveria ser um presente do imperador Severo para seu filho César Geta. Mas foi muito mais um presente para a igreja.

Os poucos cristãos que vivem naquela região felizmente não estão mais sob o jugo opressor romano. Mas precisam da mesma ousadia e fé para “enxergar além do véu” e enfrentar os obstáculos de oposição e perseguição a que ainda estão sujeitos hoje.