Ainda não li o livro A Cabana, mas acerca dele ouvi elogios e críticas. Pude conferir trechos do livro, e o que me chamou atenção foi o momento em que o personagem Jesus declara que os que o amam estão em todos os sistemas e Ele não tem o desejo de torná-los cristãos, mas quer se juntar a eles em “um processo para se transformarem em filhos e filhas do Papai”.
Dependendo do significado da palavra cristão, talvez Jesus realmente não queira que as pessoas se tornem cristãs. O termo que surgiu no primeiro século, na cidade de Antioquia, fazendo referência aos discípulos de Jesus, hoje é usado para designar uma enorme variedade de comportamentos e crenças, que não apenas são diferentes entre si, como são antagônicas, diametralmente opostas, irreconciliáveis. O termo cristão é aplicado à Igreja Católica Romana, com sua moral sexual conservadora, exigindo o celibato de seus sacerdotes e proibindo o uso de métodos contraceptivos por parte dos fiéis, mas também é aplicado à Igreja Episcopal dos EUA, que em 2004 ordenou Gene Robinson ao episcopado, fazendo dele seu primeiro bispo homossexual. Sob a designinação de cristãos são incluídos tanto a Ku Klux Klan como Martin Luther King. Tanto as Cruzadas e a Inquisição, no passado, como os movimentos ecumênicos, no presente. Quem faz votos de probreza e quem prega a teologia da prosperidade. George Bush e Barack Obama, etc..
Afinal, o que significa ser cristão?
O termo surgiu para designar os seguidores de Jesus, seus discípulos. E disso não tenho dúvida alguma: Jesus quer que pessoas de todas as nações se tornem seus discípulos (Mt. 28:18-20). E, diferentemente do uso que tem sido feito do termo cristão na atualidade, Jesus definiu com muita clareza, precisão e exatidão quem são os seus discípulos.
O discípulo é quem dedica sua vida a cumprir todas as coisas que Jesus ordenou (Mt. 28:20). Suas palavras devem ser recebidas como algo muito maior do que um conselho, uma orientação ou uma sugestão. Elas são mandamentos, e a expressão de amor que Jesus espera de nós é a obediência (Jo. 14:21).
O discípulo é aquele que decidiu aborrecer a todos, e a própria vida, por amor a Jesus (Lc. 14:26). Isso significa que minhas escolhas cotidianas são determinadas pelo decisão que tomei de agradar a Jesus em tudo, mesmo que isso venha a aborrecer a pessoas que eu amo ou a mim mesmo.
Ser discípulo é viver de forma abnegada, tomando a cada dia a cruz (Lc. 9:23), a qual não pode ser encarada como uma adversidade pela qual passamos involuntariamente. A cruz, antes de tudo, é uma escolha deliberada, consciente e voluntária. A cruz foi uma escolha na vida de Jesus, pois ninguém poderia tirar sua vida, mas ele espontaneamente a deu (Jo. 10:17,18). A cruz era a vontade do Pai para Jesus. Portanto, tomar a cruz é abraçar a vontade de Deus, mesmo quando isso nos faz passar por desgaste, sofrimento, dor e morte.
Ser discípulo é renunciar a tudo o que tem (Lc. 14:33). É viver com total despreendimento das coisas da terra, uma vez que somos peregrinos e nosso tesouro está nos céus. Se temos alguma coisa aqui, temos que viver de forma que demonstre que o nosso tesouro não está nessas coisas, mas em Cristo.
Ser discípulo é permanecer na palavra de Jesus (João 8:31). É ser alimentado por essa Palavra, ser limpo por ela, e viver praticando (Mt. 7:24-27).
Portanto, o autor de A Cabana se equivoca quanto à vontade de Jesus. Mesmo que o termo cristão esteja sendo usado indiscriminadamente, Jesus continua querendo cristãos, discípulos. Contudo, quem carrega o nome de cristão sem atender ao que Jesus espera de seus seguidores, não é digno de levar esse nome (Mt. 10:37-38), e poderá ouvir do próprio Senhor: “Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade”. Para esses, tenho uma palavra: Ainda há tempo para arrependimento.
Anderson Paz