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Archive for Fevereiro, 2009

Sobre homens e animais

Fevereiro 25, 2009 andersonpaz 2 comentários

A comemoração dos 200 anos de nascimento do naturalista britânico Charles Darwin e dos 150 anos da publicação de sua obra “A Origem das Espécies” ganharam amplos divulgação na imprensa em geral.  Darwin, com sua teoria sobre a evolução das espécies, tem sido celebrado como um dos maiores cientista do século XIX.

Devido à essas comemorações, o debate entre evolucionismo e criacionismo está ganhando evidência em vários espaços, tanto seculares quanto religiosos. O telejornal Bom dia Brasil, da TV Globo, levou ao ar uma série de reportagens que tratavam sobre o tema.   O mesmo tema foi tratado por muitos outros jornais e programas. O Vaticano não deixou o assunto de lado, e no mês de março realizará uma conferência em que cientistas, filósofos e teólogos discutirão a compatibilidade entre o darwinismo e os ensinos católicos.

Sobre esses debates que sido promovidos recomendo dois artigos:  “Do Dogmatismo Evolucionista”, escrito por Robinson Cavalcanti, e “Ideias de Darwin”, escrito por Karl Heinz Kientz. Ambos foram publicados no site da Editora Ultimato.

Não pretendo usar este espaço para esse debate, mas quero reproduzir aqui um trecho do livro Ortodoxia, de G. K. Chesterton [1], publicado no início do século XX. No referido texto, Chesterton comenta que entre as razões pelas quais muitos homens estavam abandonando o Cristianismo estava “a convicção de que os homens, com sua forma, estrutura e sexualidade, são no fim das contas muito semelhantes às feras, uma simples varidade do reino animal”. Acerca dessa convicção, Chesterton escreve o seguinte:

“Se você parar de olhar para livros sobre os animais e os homens e começar a olhar diretamente para os animais e os homens (…), você observará que o que assusta não é o quanto o homem se assemelha aos animais, mas quanto ele difere deles. É a monstruosa escala de sua divergência que exige explicação. Que o homem e os animais são iguais é, num certo sentido, um truísmo; mas que, sendo tão iguais, eles sejam tão disparatadamente desiguais, esse é o choque e o enigma.

O fato de um macaco ter mãos é muito menos interessante para o filósofo do que o fato de que, tendo mãos, ele não faz quase nada com elas; não estala os dedos, nem toca violino; não entalha o mármore, nem trincha costeletas de carneiro. Fala-se de arquitetura bárbara e de arte inferior. Mas os elefantes não constroem colossais templos de marfim nem mesmo no estilo rococó; os camelos não pintam nem mesmo quadros ruins, embora sejam equipados de muitos pincéis de pelo de camelo.

Certos sonhadores modernos dizem que as formigas têm uma organização social superior à nossa. Elas têm de fato uma civilização; mas exatamente essa verdade só nos faz lembrar de que é uma civilização inferior. Quem jamais descobriu um formigueiro decorado com estátuas de formigas famosas? Quem já vu uma colmeia na qual estavam esculpidas as imagens de esplêndidas rainhas de outrora?

Não; o abismo entre o homem e as outras criaturas pode ter uma explicação natural, mas é um abismo. Falamos de animais selvagens; mas o único animal selvagem é o homem. Foi o homem que se evadiu. Todos os outros animais são domésticos e seguem a inflexível respeitabilidade de sua tribo ou espécie. Todos os outros animais são domésticos; apenas o homem é sempre indômito, seja ele um devasso, seja ele um monge”.

Apesar de ter sido escrito há mais de 100 anos, o texto de Chesterton continua levantando as questões que o darwinismo e o neodarwinismo ainda não conseguiram responder. De onde vem essa capacidade do homem de fazer, criar e transformar? De onde vem a percepção do belo, das artes, da música? De onde vem a capacidade de trabalhar com as palavras, fazer poesia, e ter deleite nisso? De fazer filosofia e produzir ciência? Essas e muitas outras perguntas não têm sido respondidas ao longo desses 150 anos da teoria darwiniana.

Contudo, há respostas para essas perguntas. Elas estão nAquele que tem respostas para tudo.

“Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Sl. 19:1).

[1] G. K. Chesterton, Ortodoxia, pg. 235,236. Ed. Mundo Cristão

Anderson Paz

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Escravidão da “segurança”

Fevereiro 20, 2009 andersonpaz Deixe um comentário

O texto de Nm. 11:4-6 registra um episódio da história de Isarel no deserto, no qual o povo murmurou contra Moisés por não ter outra coisa para comer além do maná. Em suas murmurações, o povo fez comparações com sua vida no Egito. Diziam que lá, apesar da escravidão, eles supostamente se alimentavam melhor.

Em uma reflexão sobre esse momento da peregrinação de Israel, vejo que o motivo da murmuração era porque aquele povo era escravo da “estabilidade” e  da “segurança”.  Eles não se alimentavam melhor no Egito. Provavelmente passavam alguns dias sem comer. Afinal, eram escravos. Mas lá eles viam as sementes e as plantações de onde seria retirado o seu alimento.  Além disso, viam também os celeiros e os depósitos do Egito.  Contudo, ao caminhar com o Senhor pelo deserto, teriam que depender apenas da palavra que o Senhor lhe havia dito: que a cada manhã lhes enviaria o maná. Não teriam como plantar, colher e estocar. Só teriam que colher um alimento sobrenatural que aparecia a cada manhã, como o orvalho.  E só podiam colher a quantidade de maná correspondente à alimentação por um dia.  Maná guardado para o dia seguinte estragava. O alimento era oferecido por Deus a cada dia, e para aquele dia. O único dia em que podia guardar para o dia seguinte era na sexta-feira, para que ninguém colhesse no sábado. Para aqueles homens, isso dava a sensação de que seu futuro não estava em suas mãos. E essa sensação é extremamente desconfortável para muitos.

Moisés havia alertado o povo a não guardar o maná. Mas, mesmo assim algumas pessoas guardaram, e o maná se estragou (Êx. 16:19-20). Esses homens se sentiam inseguros com uma promessa de que a cada manhã haveria comida. Para eles era mais seguro guardar. Creio que por essa mesma razão, muitos dos israelitas desejaram voltar à escravidão no Egito. Preferiam sofrer os açoites e as dores da escravidão, e dessa forma garantir o seu alimento, do que viver em liberdade plena, deixando o dia de amanhã nas mãos de Deus. Desejaram voltar à escravidão apenas pela aparente “estabibilidade”  e “previsibilidade” que esta lhes oferecia.

Todos nós gostamos da segurança, de saber o que será de nós amanhã.  E isso é muito natural. Gostamos da sensação de que tudo está sob o nosso controle, da previsibilidade. E trabalhamos para que isso aconteça.

Trabalhamos com a previsibilidade, e buscamos meios de garantir como será o nosso amanhã. Colhemos para plantar, e fazemos planos com as colheitas. Trabalhamos para receber. E estamos tão certos que vamos receber que fazemos compras contando com esse dinheiro. Tudo isso é muito natural e comum a todo nós. Tiago, em sua carta, nos ensina que é correto fazermos planos, desde que esses estejam sujeitos à vontade de Deus (Tg. 4:13-15). Então não há problema algum em planejar, prever, refletir sobre o futuro e tomar decisões hoje sobre o amanhã. Mas o problema surge quando nos tornamos escravos dessas coisas, quando nos apegamos à “estabilidade” e criamos a ilusão de que temos o nosso futuro em nossas mãos.

O apego à segurança é um risco pelo qual todos nós passamos. Todavia, caminhar com Deus é conviver com o imprevisível. É andar por fé. O justo vive pela fé(Rm. 1:17). É se humilhar e reconhecer o que é a nossa vida à luz do que está em Tg. 4:14: “Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa”.

Jesus nos ensinou a não andarmos ansiosos pelo dia de amanhã. Devemos buscar em primeiro lugar o Reino de Deus (Seu governo, Sua vontade sobre nossas vidas) , e tudo o que nós necessitamos será acrescentado.  “Venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt. 6:10). Todas as demais coisas ficam sob os cuidados do Senhor. Para viver por fé é necessário romper com a escravidão da “segurança”.

Para cumprir qualquer direção do Senhor, é necessário romper com a necessidade de ter o controle de tudo em nossas mãos, vivendo uma uma falsa segurança. Para falar a verdade uns com os outros (Ef. 4:25) ou para confessar os nossos pecados uns aos outros (Tg. 5:16), é necessário estar livre da falsa segurança que a mentira nos oferece. Muitos persistem na mentira por não saber qual será a reação da pessoa enganada quando souber a verdade. Perguntam: “O que será de mim se eu falar a verdade?”. Para tal pessoa mentira é uma forma de manter o controle da situação em suas mãos. As trevas passam a ser seu abrigo. Afinal, falar a verdade pode colocá-lo diante do imprevisível. É necessário fé para falar a verdade.

É necessário fé para perdoar, pedir perdão, amar os inimigos e para guardar qualquer dos mandamentos do Senhor. O autor da carta aos Hebreus escreveu sobre os homens que viveram po fé: “Os quais pela fé venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam as bocas dos leões, Apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fuga os exércitos dos estranhos. As mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; E outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (Dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra” (Hb. 11:33-38).

Sem fé é impossível agradar a Deus. Nossa obediência a Ele é por fé: “e que, agora, se tornou manifesto e foi dado a conhecer por meio das Escrituras proféticas, segundo o mandamento do Deus eterno, para a obediência por fé, entre todas as nações”.

Obedecer a Deus implica em abrir mão de saber o que acontecerá amanhã, porém mantendo sempre a certeza de que Deus nos ama, que usa todas as coisa para o nosso bem, que o que Ele começou em nós será concluído e que reserva para nós um futuro de glória. Obedecer é se livrar da escravidão da falsa segurança, e se apegar à verdadeira estabilidade que só se alcança ao praticar as palavras do Senhor: “Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, que não caiu, porque fora edificada sobre a rocha. E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica será comparado a um homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína” (Mt. 7:24-27).

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Templos ou Igrejas?

Fevereiro 11, 2009 andersonpaz 2 comentários

Já faz muito tempo que não publico no Blog nenhum texto meu. Espero voltar a escrever em breve.

Hoje quero aproveitar este espaço para publicar um texto de autoria de Ed René Kivitz. Vale a pena ler.

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A respeito de coisas que eu não posso deixar de saber.

Você sabia que foi apenas no ano 190 d.C. que a palavra grega ekklesia, que traduzimos como igreja, foi pela primeira vez utilizada para se referir a um lugar de reuniões dos cristãos? Sabia também que esse lugar de reuniões era uma casa, e não um templo, já que os templos cristãos surgiram apenas no século IV, após a conversão de Constantino?

Você sabia que os cristãos não chamavam seus lugares de reuniões de templos até pelo menos o século V? Você sabia que o primeiro templo cristão começou a ser construído por Constantino, sob influência de sua mãe Helena, em 327 d.C., às custas de recursos públicos, e sua arquitetura seguia o modelo das basílicas, as sedes governamentais da Grécia e, posteriormente, de Roma, e dos templos pagãos da Síria?

Você sabia que as basílicas cristãs foram construídas com uma plataforma elevada acima do nível da congregação e que no centro da plataforma figurava o altar, e à sua frente a cadeira do Bispo, que era chamada de cátedra? Você sabia que o termo ex cathedra significa “desde o trono”, numa alusão ao trono do juiz romano, e, por conseguinte, era o lugar mais privilegiado e honroso do templo?

Você sabia que o Bispo pregava sentado, ex cathedra, numa posição em que o sol resplandecia em sua face enquanto ele falava à congregação, pois Constantino, mesmo após a sua conversão ao Cristianismo, jamais deixou de ser um adorador do deus sol? Você sabia que o atual modelo hierárquico do Cristianismo, que distingue clero e laicato, teve origem e ou foi profundamente afetado pela arquitetura original dos templos do período Constantino?

Você sabia que Jesus não fundou o Cristianismo, e que o que chamamos hoje de Cristianismo é uma construção religiosa humana, feita pelos seguidores de Jesus ao longo de mais de dois mil anos de história? Você sabia que o que chamamos hoje de Cristianismo está profundamente afetado por pelo menos três grandes eras: a era de Constantino, a era da Reforma Protestante e a era dos Avivamentos na Inglaterra e nos Estados Unidos? Você sabia que é praticamente impossível saber a distância que existe entre o que Jesus tinha em mente quando declarou que edificaria a sua ekklesia e o que temos hoje como Cristianismo Católico Romano, Protestante, Ortodoxo, Pentecostal, Neopentecostal e Pseudopentecostal?

Você sabia que os primeiros cristãos se preocuparam em relatar as intenções originais de Jesus com vistas a estender seu movimento até os confins da terra? Você sabia que este relato está registrado no Novo Testamento, mais precisamente nos Evangelhos e no livro de Atos dos Apóstolos? Você sabia que o terceiro evangelho, Evangelho Segundo Lucas, e o livro dos Atos deveriam formar no princípio uma só obra, que hoje chamaríamos de “História das origens cristãs”? Você sabia que os livros foram separados quando os cristãos desejaram possuir os quatro evangelhos num mesmo códice, e que isso aconteceu por volta de 150 d.C.? Você sabia que o título “Atos dos Apóstolos” surgiu nessa época, segundo costume da literatura helenística, que já possuía entre outros os “Atos de Anibal” e os “Atos de Alexandre”?

Nesse emaranhado de coisas que eu não sabia, três coisas eu sei. A primeira é que a crítica que o mundo secular faz ao Cristianismo institucional tem sérios fundamentos, ou como disse Tony Campolo: “Os inimigos estão parcialmente certos”. A segunda coisa que sei é que nesta Babel que vem se tornando o movimento evangélico brasileiro, está cada vez mais difícil identificar a essência do Evangelho de Jesus Cristo, nosso Senhor. A terceira coisa que sei é que vale a pena perguntar aos primeiros cristãos o que eles entenderam a respeito de Jesus, sua mensagem, sua proposta de vida e suas intenções originais. Vale a pena voltar à Bíblia. Não há outra fonte segura de informação e formação espiritual, senão a Bíblia Sagrada, especialmente o Novo Testamento.

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